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15/03/19

A Poli Brasil 2022: um novo salto rumo ao Bicentenário da Independência

Allen Habert

Em artigo, diretor da CNTU disserta sobre convite feito a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) para integrar o projeto Brasil 2022, visando a atuação na sociedade frente aos novos desafios como a quarta revolução industrial, com inovações tecnológicas que alteram os padrões de produção, gestão e sociabilidade.

 

 

Meu batismo na Poli

Após mais de 40 anos de formado na Poli tenho um grande prazer de vir conversar com esta importante Congregação da EPUSP.

 

A Poli ocupou um papel importante em minha caminhada. Sou devedor do muito que recebi. Cada prédio aqui tem uma vida. Não são construções sem história. Lembro de seus significados e emoções. Passei anos efervescentes aqui. Quando entrei em março de 1973 logo na 2ª quinzena tinham matado o estudante de geologia Alexandre Vanucchi Leme. Tinha sido preso e torturado. Houve uma missa na catedral da Sé, num clima de medo e ameaça, mas foi um sinal de resistência e luto capitaneado pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. O DCE em 1975 levou o seu nome que ficou até hoje. DCE Alexandre Vanucchi Leme. Em seguida, em abril de 1973 ,o Grêmio Politécnico juntamente com outros centros acadêmicos de maneira genial convidam o Gilberto Gil, recém-vindo de seu exílio em Londres, a fazer o seu primeiro show no circuito universitário. Era uma maneira de juntar gente, enaltecer o congraçamento e promover uma identidade positiva. O show foi no anfiteatro do Biênio. Lotadíssimo com 700 estudantes e muitos professores. Janelas tomadas. Gil num banquinho cantou a música lendária "Cálice" pela primeira vez, que a lia num guardanapo, a uma plateia eletrizada. Neste dia participei da entrevista com o Gil para o jornal Poli Campus do Grêmio. Editamos em sete páginas com fotos em papel azul. O jornal correu toda a USP, foi o meu batismo na Poli. Estava ganho para o que der e vier, DPs, madrugadas e tudo.

 

Sempre recordo com os jovens estudantes de engenharia de várias escolas, que tive um currículo paralelo às aulas da Poli, que foi a participação no Grêmio Politécnico e no Centro de Engenharia da Produção (que ajudei a fundar em 1974) dando-me novas cores e energias a minha trajetória universitária.

 

Diálogos com a Poli

Depois ao longo dos anos como presidente do Sindicato dos Engenheiros, diretor da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros) ou da CNTU dialoguei com muitos diretores da Poli: os saudosos Francisco Romeu Landi, Décio de Zagottis e José Augusto Martins; o Hélio Guerra ,o Célio Tanigushi , o Antonio Massola, o Vahan Agopyan, o Ivan Falleiros , o José Roberto Cardoso, o José Roberto Castilho Piqueira e agora com a nossa primeira diretora, a Liedi Bernucci, que nos dá muito orgulho.Com cada um deles tenho uma pequena história em torno da defesa da educação e da engenharia nacional.

 

Recordo que tive a oportunidade aqui na Poli de implantar e coordenar junto à Fundação Vanzolini, a área de educação continuada a distância. Durante cinco anos, de 1995 a 2000, lançamos pioneiramente por teleconferências o Programa Engenheiro 2001 junto às 140 escolas de engenharia de então no país e depois o Projeto E (Educação, Engenharia e Empreendedorismo). Foi uma época pioneira na EAD juntamente com a disseminação da internet. Na minha dissertação de mestrado sobre educação continuada dos profissionais de engenharia relato isto.

 

Poli Brasil 2022 - a 4ª Revolução Industrial como desafio

O que me traz hoje aqui é uma proposta que denomino de Poli Brasil 2022, que gostaria de expor e aprofundar com esta direção.

 

Daqui a três anos teremos a comemoração do Bicentenário da Independência e dos 100 anos da Semana de Arte Moderna.

 

Toda a vez que tem o 22 na história do Brasil, o País muda de pele. Foi em 1822, em 1922 e será em 2022.

 

E a Poli, que esteve envolvida no século 20 com a industrialização, a urbanização e o desenvolvimento da ciência e da tecnologia chega às fronteiras  da terceira década do século 21 com novos desafios.

 

A 4ª Revolução Industrial com uma onda de inovações tecnológicas altera novamente os padrões de produção, gestão e sociabilidade. Economias nacionais e suas sociedades estarão conectadas a uma super-rede digital global.

 

Em 2022 estima-se que 14 bilhões de objetos, máquinas, equipamentos, celulares (2,4 bilhões) estarão interligados. Em 2030 a quase totalidade, ou seja, 94% dos 8,5 bilhões de habitantes poderão ter acesso à web através de dispositivos pessoais. Sendo que 30 bilhões de objetos estarão conectados.

 

A indústria fará parte desta imensa rede. A automação industrial será articulada pela internet, englobando todas as cadeias produtivas, desde o suprimento de matérias primas, insumos, partes e subconjuntos, passando pelos processos de manufatura, distribuição, comercialização e chegando até os consumidores. Será possível otimizar o uso de máquinas , poupar energia e insumos, diminuir estoques, otimizar e planejar manutenção e logística em um escopo não alcançável hoje. Os EUA, China, Alemanha, UK, Japão , Coréia do Sul , dentre outros lançaram desde 2011 iniciativas relevantes de política industrial e tecnológica 4.0 unindo forças entre governo, empresas, universidades e institutos de pesquisa.

 

O Brasil não dispõe de um projeto articulado estruturado para o avanço da internet das coisas e da manufatura avançada. Nos últimos anos, pelo contrário, foram reduzidos de forma inconsequente os investimentos públicos e gastos de suporte ao sistema de ciência, tecnologia e inovação. Com isto desarticulou-se o sistema nacional de inovação e nos distanciamos de ter uma estratégia nacional ante a 4ª Revolução Industrial.

 

O País precisa com urgência de um programa nacional de avanço industrial e tecnológico em direção à economia digitalizada e à manufatura avançada.

 

A indústria brasileira é responsável por 9% do PIB. Já foi 23% em 1980. Aí entra o fator China , a questão do câmbio, as crises. Mesmo assim a produção industrial brasileira é a 15º do planeta. Algo significativo e com uma complexidade e capilaridade no tecido produtivo. O jogo não está perdido.

 

Penso que a Poli, especificamente, deve unir esforços para diminuir as distâncias e as desigualdades. A 4ª Revolução Industrial é um desafio equivalente ao da industrialização, quatro anos após a proclamação da República, quando nasce a Poli em 1893. A cidade de São Paulo tinha 70.000 habitantes,  num país que era uma grande fazenda de café.

 

Memória I : a revolução do Patinho Feio

O nascimento da cibernética na década de 30 esteve na base da 3ª Revolução Industrial no mundo. O espírito pioneiro e empreendedor aqui na Poli resultou no lançamento do Patinho Feio, o primeiro computador nacional construído no país feito pelo Departamento de Engenharia Elétrica na década de 70 por jovens professores e engenheiros. Foi algo emblemático. Formou toda uma geração na área acadêmica e principalmente recursos humanos para o sistema produtivo que participaram e participam de inovações na tecnologia da informação e comunicação. Problemas da política industrial, pressões internacionais e crise da política institucional brasileira nos levaram a perder a oportunidade-chave que outros países como a Coréia do Sul aproveitaram na informática e se saíram muito bem.

 

Sonhar, inventar e inovar é algo que fez o processo civilizatório ir para frente. E é isto que precisamos nesta 4ª Revolução Industrial.

 

A Amazônia como amálgama do País

O Brasil é um país ambicioso. Sua vocação é para a grandeza. Se perdermos a Amazônia o País se dividirá em 3 a 4 países. A Amazônia é a grande amálgama do País. É o maior vale do silício da biogenética do mundo. A questão do meio ambiente é uma das grandes batalhas do século XXI. O Titanic da Terra chocar-se-á com o iceberg da loucura destrutiva do homem insaciável de consumo e de desperdício?

 

A Amazônia deve ser um tema pensado, debatido e soluções geradas em todas as nossas 750 ( 150 públicas e 600 privadas) escolas de engenharia, centros de pesquisa e em quaisquer cidades do país.

 

Na Poli em especial. Isto faz parte do Poli Brasil 2022. Qual país do planeta tem 64% de sua área preservada? Destes 59% é a Amazônia. 7% das terras são para a agricultura. 23% para a pecuária e 5% das áreas são as 5.670 cidades. Em 425.000km² (menos que área de MG) habitam os 211 milhões de brasileiros. O resto é tudo verde e azul.

 

+Engenharia +Desenvolvimento

A participação dos engenheiros na discussão das cidades é decisiva para criarmos as cidades inteligentes e viabilizar uma qualidade de vida para os 85% dos brasileiros urbanizados. A questão da infraestrutura urbana, da mobilidade, da carência alarmante dos transportes metroferroviários, do déficit habitacional de 7 milhões de moradias quando temos capacidade e tecnologia de levantar um prédio em 10 dias, do déficit  do saneamento ambiental para 100 milhões de brasileiros área esta que ganha prêmios internacionais, das consequências da contaminação do ar para a qualidade da saúde.

 

A cidade de São Paulo e a metrópole da Grande São Paulo devem ser focos de nossa atenção no planejamento e na gestão urbana. Formar opinião pública sobre as soluções positivas existentes.

 

Já se fez muito, mas precisamos de um novo salto, numa nova compreensão das soluções. Claro, vamos ter que superar a chamada "PEC da Morte" que engessa e retarda os investimentos públicos sociais. Só existe isto no mundo aqui no Brasil.

 

A engenharia resolve problemas? O país precisa de um mundo de engenheiros com educação continuada e remuneração justa. Defender a pós-graduação que querem cerceá-la e confiná-la.

 

Não tem outro caminho para o desenvolvimento inclusivo. Apostar em nossa capacidade nacional, em nossa cultura, em nossos cérebros.

 

Poli Brasil 2022- força irreversível e contagiante

Lembrar dos bons nomes, dos heróis e anti-heróis anônimos, que nos legaram uma história de garra, de realizações, de coragem. Ter memória ajuda a desenhar o futuro. Por isto reestudar a história da Poli com os alunos, professores, funcionários e sociedade é fundamental. Não é uma placa, uma pintura na parede, um monte de prédios. É a disposição que se teve, por exemplo, para dotar este estado de São Paulo e este país de energia para virar uma potência energética no mundo. As potências no mundo não fazem guerras por energia?

 

Fazer um tour virtual da história da Poli. Livros. Feira dos poetas. Música. Seminários. Rodas de conversa. Filmes. Vídeos. Jogos. Memória. Exposições. Shows. Criação. Parcerias.

 

Produzir cultura e ampliar as conexões. Semana e semaninhas de arte moderna na e da Poli rumo a 2022.É a Poli pedindo passagem. Reinterpretar a missão fundante da Poli de servir a sociedade.

 

Estimular os 6.500 alunos, 430 professores, 400 funcionários da Poli, o combativo Grêmio Politécnico e os centrinhos (escolas de lideranças), os engenheiros politécnicos já formados, conectando-os através da renovada AEP- Associação dos Engenheiros Politécnicos, os crescentes 3.500 Amigos da Poli, a abraçarem um aspecto, uma área dentro de um amplo espectro de possibilidades, vai criar uma onda de força irreversível e contagiante.

 

Isto é a Poli Brasil 2022.

 

Memória II :O Petróleo é nosso

A geração que emergiu após o final da ditadura em 1945 foi aquela que fez a campanha pelo "Petróleo é nosso". Ouvia dizer que um dos lugares pioneiros desta campanha tinha sido o centro estudantil Moraes Rêgo aqui da Poli. Foi a maior campanha que uniu os estudantes da Poli, UEE e UNE, os professores e pesquisadores, as entidades e institutos da área tecnológica em São Paulo e no Rio de Janeiro, a ala nacionalista do Exército e o povão, que entendeu o alcance desta gigantesca batalha. A Petrobras criada em 3 de outubro de 1953, a 8ª maior empresa de petróleo do mundo, foi fruto também da compreensão política da comunidade politécnica.


Consciência crítica: nossa principal riqueza      

O Brasil tem um potencial danado. Não podemos vender minério e terras raras e depois importar produtos de informática e celulares. O rombo nas contas vira muito desfavorável. E o rombo na inteligência também.  

 

Crises, transformações, disrupções, limites de investimentos vão ter sempre. A nossa força está na formação de uma consciência crítica, pró-ativa, interconectada com a sociedade interessada em fazer o tripé democracia, desenvolvimento e soberania avançarem. Ajudar com a força do saber e do conhecimento a empurrar o executivo, o legislativo, o judiciário e o ministério público. Esta é a nossa missão nos dias hoje e sempre. Seja na universidade, na empresa ou no sindicato. Precisamos de uma sociedade bem menos desigual com oportunidades permanentes e mobilidade social. Não é tão impossível. Podemos gerar um modelo nosso com nossas cores e cultura. Não deu e não dará certo a importação de quaisquer modelos. O Brasil tem vocação para ser a base de uma nova civilização pacífica e próspera no planeta. O sonho é o nosso vento na caravela da vida.

 

CNTU- a Conferência do Saber Brasil 2022

A CNTU – a Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários representando engenheiros, economistas, farmacêuticos, odontólogos, nutricionistas com 2 milhões de profissionais em sua base, vem debatendo desde sua criação em 2006,iniciativas para aprofundar a democracia , o desenvolvimento inclusivo e a soberania em nosso país. São 65 entidades sindicais de todas as regiões filiadas à CNTU em conjunto com um Conselho Consultivo ou o Conselho das 1.000 cabeças com 1.400 lideranças de todas as áreas do conhecimento e da sociedade que auxiliam a se errar menos e acertar mais. A CNTU lançou e vem trabalhando o projeto Brasil 2022 – o País que queremos. Unir os brasileiros em torno dos 200 anos de sua Independência e dos 100 anos da Semana de Arte Moderna, ativando a cidadania com prioridades para retomar e dar um salto em nosso desenvolvimento inclusivo com democracia e soberania. O arquiteto Ruy Ohtake nos brindou fazendo a logomarca do Brasil 2022 que gerou muitas boas interpretações.

 

Temos três momentos. i) Há as iniciativas da CNTU, ii) Há as iniciativas da Rede Brasil 2022 que são todas as entidades e instituições que fazem seus eventos, iii) E há a Conferência do Saber Brasil 2022 a ser realizada em novembro de 2020 em São Paulo rumo ao Bicentenário e à realização da Semana de Arte Moderna de 2022.

 

SEESP - fundado por um politécnico

Lembro que o SEESP - Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo desenvolve relações com a Poli há quase 40 anos. Muitos professores da Poli e vários da sua Congregação fazem parte do Conselho Tecnológico da entidade. O seu coordenador há 10 anos é um membro desta Congregação. Premiamos há 32 anos muitos politécnicos e professores da Poli no Prêmio Personalidade Tecnológica, hoje um dos principais prêmios da área tecnológica no país.

 

O SEESP, que hoje tem mais de 63.000 associados, foi criado em 1934 por um politécnico formado em 1909, o engenheiro Roberto Simonsen. A primeira diretoria era formada só por politécnicos.

 

Em 2006 a Federação Nacional dos Engenheiros lança o projeto Cresce Brasil +Engenharia +Desenvolvimento que atravessa mais de uma década debatendo e encaminhando propostas em mais de 120 seminários em todo o país. Polinizou a necessidade de sermos um país que pensa grande com a engenharia como DNA do desenvolvimento inclusivo e da soberania.  

 

Poli Brasil 2022 - uma síntese

Temos três anos para desenvolver esta iniciativa.Inicialmente pode causar uma perplexidade , uma ideia de dispersão e dificuldades.É um projeto para aumentar a autoestima da Poli e fazê-la brilhar mais , inserido-a num processo de reinvenção do país no bojo dos seus 200 anos de sua independência.O que seria um novo grito? Estimular a comunidade politécnica, da USP e a sociedade a produzir um pensamento e propostas que unam os brasileiros em torno de nossa  herança política e cultural , engajá-las a pesquisar as relações da soberania e a engenharia,a C,T&I a serviço de aliviar a canseira do homem, a cultura como grande unificadora da brasilidade.O brasão de São Paulo estampa em latim com força "Pro Brasilia Fiant Eximia"  ou seja "Pelo Brasil,faça-se o melhor".

 

Precisamos nos superar e encantar nossa aldeia. Somos herdeiros de um pensamento político e cultural que remonta aos inconfidentes , a José Bonifácio e que passa por Paula Souza, Ramos de Azevedo, André Rebouças, Saturnino de Brito, Prestes Maia,Mário de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Pixinguinha, Cecília Meirelles, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Pagu, Cora Coralina, Manoel de Barros, Graciliano Ramos, Manoel Bandeira,  Santos Dumont, Roberto Simonsen, Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, Mario Schenberg, Figueiredo Ferraz, Darci Ribeiro, Francisco Romeu Landi e tantos outros inspiradores e realizadores.

 

A Poli Brasil 2022 vai deixar uma marca de uma geração que lutou pela democracia,construiu a sua parte na cartografia cívica e passou a senha de um país mais forte,soberano e empreendedor. Isto animará a comunidade universitária a criar também a incrível USP Brasil 2022.

 

Unidos pela história!

 

 

*Texto elaborado para a reunião da Congregação da EPUSP - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 21 de fevereiro de 2019.

** Allen Habert é diretor de articulação nacional da CNTU. 

 

 

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